Robin Taffin

Quer me ter no seu canto do ringue?

Com quase 20 anos de idade fiz um mochilão solo pela Europa de um mês e meio.

Naquela época não tinha celular e o acesso a internet era super restrito, então viajava com um guia da Europa na minha mochila, era um tijolão que pesava uma tonelada e ocupava metade da mochila, mas era um mal necessário.

Usava esse guia pra encontrar os albergues que ficava, torcendo pra ainda existirem e terem vaga.

Me lembro até hoje de chegar em Estocolmo de trem, depois pegar o metrô, um ônibus e uma bela caminhada no frio de -10ºC pra chegar no albergue que vi no guia e queria ficar.

Falei com a recepcionista e a ducha de água fria: lotado. Ia ter show do Eminem (no auge da carreira) na cidade e tava tudo lotado. A recepcionista me indicou um outro albergue que provavelmente teria vaga, mas era do outro lado da cidade.

Mais ônibus, caminhadas e frio, e umas duas horas depois cheguei no outro albergue que era bem mais afastado do centro. Quase lotado, mas arrumei uma cama em um quarto compartilhado com uma galera que ia no show.

Aí bateu. Mesmo num albergue lotado, senti uma puta solidão.

Já tinha passado um tempo com um amigo meu na Escócia e com meu irmão na França, mas estava há um tempo sem falar com um rosto familiar.

Encontrei um orelhão e com um esquema de conseguir fazer ligações internacionais liguei pra minha irmã. Por sorte ela atendeu.

Lembro até hoje o que ela falou: sabia que em algum momento você ia ligar pra mim. Conversamos alguns minutos e desliguei.

Entendendo o que entendo hoje, sei que as circunstâncias não criam o sentimento de solidão, mas, mesmo assim, foi muito bom falar com minha irmã.

Na liderança a solidão é muito presente.

Não é falta de gente por perto, mas a solidão de não poder compartilhar certos pensamentos, estratégias ou inseguranças com quem está ao nosso redor.

A gente não quer parecer fraco, vulnerável ou despreparado. Queremos que confiem na gente.

Nesses momentos é legal ter uma válvula de escape, alguém que a gente possa compartilhar. Alguém que vá ouvir e, não só isso, ajudar a aterrisar certas coisas, torná-las comuns e nos lembrar de que tá tudo bem.

Eu me beneficiei muito disso ao longo da minha vida, até hoje tenho pessoas isentas que me escutam.

Eu também sou essa pessoa para muitos. Alguém pra trocar além do chatgpt. Alguém que entende o que é ser humano, como a vida funciona de uma forma fundamental e como isso implica em tudo que fazemos.

Ninguém precisa de mim, e meu entendimento é que todos têm bem-estar inato.

Mas às vezes esquecemos.

Esse texto é só pra te lembrar disso.

Abração,
Robin

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